Shere Hite: “A revolução sexual não aconteceu naquela época e não aconteceu agora”

Sociedade

O Relatório Hite, publicado em 1976 nos EUA e em 1979 em Portugal, foi, em si, uma revolução. Nunca ninguém tinha pensado, perguntado, falado ou escrito assim sobre a sexualidade feminina, o orgasmo, o clitóris ou a masturbação. Shere Hite fê-lo. E revolucionou a forma de pensar o prazer feminino. O livro foi reeditado este ano por cá e nós pedimos-lhe esta entrevista. As respostas chegaram finalmente.

Entrevista de Catarina Pires | Fotografia de Getty Images

O questionário que deu origem ao Relatório Hite, reeditado este ano pela Bertrand com o título O Relatório Hite – Um Profundo Estudo Sobre Sexualidade Feminina, tinha 58 perguntas, as primeiras onze sobre orgasmo, as formas de o atingir, as sensações que provoca, a importância que assume, outras tantas, ou mais, dedicadas à masturbação, mas também ao sexo oral – fellatio e cunnilingus – e anal.

Os relacionamentos emocionais não foram deixados de fora, nas suas diversas formas, nem a forma de viver o sexo nos vários estádios da vida, da infância à velhice. As perguntas abrangiam tanto relações heterossexuais como homossexuais e bissexuais e procuravam enquadrar as respostas do ponto de vista cultural, intelectual, social e político.

Aos 76 anos, Shere Hite considera que, apesar do muito que tem sido conquistado, a revolução sexual continua por fazer, que o feminismo em parte implodiu-se e que nunca é tarde para o sexo.

Mais de três mil mulheres responderam, com uma honestidade e detalhe por vezes desconcertante, e foi dessas respostas que nasceu o Relatório Hite, uma pedrada no charco, que, segundo a autora, foi mal recebido, sobretudo pelos homens do seu país, que se “sentiram atacados na sua virilidade”. Afinal, ao longo das mais de 500 páginas do livro, a conclusão a que se chega é que a penetração não é assim tão importante para o prazer feminino.

Seja como for, o livro vendeu mais de 50 milhões de cópias, foi traduzido em várias línguas e a sua autora, Shere Hite, nascida no Missouri, feminista, licenciada em História pela Universidade de Columbia, que chegou a posar nua para a Playboy para pagar a faculdade, tornou-se o nome incontornável do feminismo e da sexologia.

Aos 76 anos, considera que, apesar do muito que tem sido conquistado, a revolução sexual continua por fazer, que o feminismo em parte implodiu-se e que nunca é tarde para o sexo.

Em 1976, defendeu no seu Relatório Hite que a revolução sexual ainda não tinha acontecido e era necessária. E agora, acha que já aconteceu?

Defender é uma maneira interessante de colocar a questão. Em 1976, como agora, afirmei que, na minha opinião, era necessária uma revolução sexual para tornar igual a posição do homem e da mulher na sociedade.

As descobertas do relatório expressaram as vontades, necessidades e desejos de uma grande maioria de mulheres e as suas experiências de prazer e realização sexual sustentaram essa opinião, de que as mulheres se mantinham insatisfeitas e não reconhecidas no domínio do prazer sexual. A revolução sexual não aconteceu naquela época e não aconteceu agora.

Mas houve uma evolução.

Houve muitas mudanças no que respeita ao nivelamento no campo do género, mas não no quarto. Nós somos humanas! As mulheres continuam subjugadas aos homens. As mulheres continuam a ser sexualizadas na televisão, no cinema, na publicidade. Ainda não existe controlo de natalidade masculino, as leis de aborto continuam a ser uma forma de controlo sobre as escolhas das mulheres.

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houve alguma hipocrisia [no movimento #metoo]: mulheres que usam a sexualidade para atingir uma meta e depois vêm chorar lágrimas de crocodilo quando um homem tira vantagem disso.

O que quer dizer com revolução sexual?

Quero dizer que as lentes do patriarcado são retiradas e o mundo passa a ser percebido pelos olhos da sociedade, da perspetiva da mulher, tanto como do homem. Quero dizer que o prazer da mulher é tão normal e importante como o do homem. Quero dizer que a voz da mulher é ouvida a nível corporativo e político.

Não é suficiente que todas essas coisas tenham acontecido de forma intermitente e ocasional, o importante é que a base fundamental para o relacionamento sexual mude. E, apesar de muitas mudanças estarem a acontecer, esta questão mantém-se.

Como vê a evolução do feminismo e das causas que este defende? E o que pensa do movimento #metoo?

De certa forma, parcialmente, o feminismo implodiu-se. Embora existam, sem dúvida, muitas mudanças valiosas que ocorreram e continuarão a ocorrer, acho que as mulheres e o movimento feminista acabaram por perder também alguma coisa pelo caminho.

Claro, ter como objetivo salário igual por trabalho igual é melhor, não ótimo, mas melhor. Mais mulheres a ocupar posições de poder na indústria e no comércio, sim, mas está longe do equilíbrio. Politicamente, as mulheres ainda são uma minoria e as que ocupam posições de poder têm que trabalhar mais para chegar lá e permanecer lá.

Sexualmente, existem algumas incursões, por exemplo, plataformas para expor as indiscrições dos que estão no poder. No entanto, também houve alguma hipocrisia: mulheres que usam a sexualidade para atingir uma meta e depois vêm chorar lágrimas de crocodilo quando um homem tira vantagem disso. O problema ainda decorre da perceção social de que as mulheres devem atrair os homens para atingir os seus objetivos e de que os homens considerem um direito seu poder abusar disso. É a premissa da dança de género que ainda não desapareceu. O movimento #metoo é isto em ação.

Queria tornar claro [com o Relatório Hite] que a definição de sexo era sexista há muito tempo e que descrever o orgasmo unicamente como resultado do coito era incorreto e deixava muitas mulheres a sentir-se em falta de alguma forma.

O questionário que deu origem ao Relatório Hite era muito extenso, exaustivo, pormenorizado e sem tabus. Ainda hoje seria considerado ousado. O que a motivou a realizá-lo?

O grande objetivo do estudo e da produção do relatório era abordar o silêncio, abrir a cortina sobre o tabu do orgasmo feminino, do clitóris, do prazer da mulher, explorar a desigualdade de género naquilo que acredito que é a sua raiz mais forte. Sugerir que seria ousado até para os padrões atuais responde à sua pergunta anterior sobre se a revolução sexual aconteceu ou não. (Imagine-me com um um sorriso irónico neste momento).

O que me motivou? O facto de a sociedade alegar que as mulheres tinham um “problema” em atingir o orgasmo. Isso não era verdade, as mulheres não tinham problema em atingir o orgasmo através da masturbação. Queria tornar claro que a definição de sexo era sexista há muito tempo e que descrever o orgasmo unicamente como resultado do coito era incorreto e deixava muitas mulheres a sentir-se em falta de alguma forma.

Ficou surpreendida com as respostas, a adesão das entrevistadas e o enorme sucesso do livro? Como foi essa experiência?

Não fiquei nada impressionada com as respostas, fiquei profundamente interessada e senti uma grande responsabilidade ao lê-las. Fiquei impressionada, no entanto, com o sucesso do livro e a atitude do establishment em relação a este e às suas conclusões. Provocou um enorme turbilhão de reações negativas entre a elite política de Nova Iorque na época e a experiência foi bastante intimidante, para dizer o mínimo.

Como é que este sucesso influenciou a sua carreira e a sua vida?

Mudou a minha vida completamente. Claro que ganhei dinheiro com a venda dos meus livros e isso teve os seus aspetos positivos e negativos, como imagina. Mas tive que deixar a minha cidade natal, o meu país, senti-me exilada ao ponto de abdicar da minha cidadania americana e adotar a nacionalidade de outro país [Alemanha]. Foi um misto.

Passaram 43 anos desde a publicação do Relatório Hite. O que mudou?

Penso que é discutível que a sociedade em si tenha mudado. As pessoas mudaram, o envolvimento individual com a diferença cresceu. Os grupos minoritários ganharam uma voz mais audível por causa disso. No entanto, as forças que estão hoje em posições de poder são as mesmas que estavam quando escrevi o livro. As posições de poder em todo o mundo continuam a ser ocupadas predominantemente por homens brancos heterossexuais, seja isso o que for.

Os problemas de saúde mental estão a aumentar globalmente e isso inclui a adição à pornografia, que enviesa os parâmetros das normas sociais para a sexualidade. Eu acho que é um momento muito preocupante para todos nós.

O que pensa das novas tecnologias, das redes sociais e das plataformas de encontros? Estão a influenciar os relacionamentos emocionais e sexuais e a froma como as pessoas veem e vivem o sexo?

Todas essas novas tecnologias foram uma vaga que sacudiu as relações emocionais e sexuais, porque sem intimidade essas experiências perdem autenticidade e profundidade. O elemento primordial da atração sexual humana são os sentidos, sendo o cheiro um dos mais importantes.

O relacionamento virtual carece de todos os sentidos, à exceção do som e da visão e mesmo esses estão comprometidos. Cada vez mais, as gerações mais jovens e as que sofrem de algum tipo de ansiedade social estão a tornar-se mais dependentes do virtual para se ligarem.

Isto, na minha opinião, é um desastre e só pode levar ao isolamento, introspeção, ilusão, depressão e até ao suicídio, nos mais vulneráveis. Os problemas de saúde mental estão a aumentar globalmente e isso inclui a adição à pornografia, que enviesa os parâmetros das normas sociais para a sexualidade. Eu acho que é um momento muito preocupante para todos nós.

Há uma aceitação que acontece quando uma mulher envelhece, um conhecimento de como o seu corpo funciona. Torna-se mais sensual à medida que se liga menos à imagem de seu eu físico/sexual e se relaciona mais consigo mesma como um todo.

Uma das questões abordada no seu livro e que continua a ser pouco falada é a sexualidade das pessoas mais velhas. Aos 76 anos, como vê esta questão e o “idadismo” que lhe está associado?

O sexo depois de uma certa idade sempre foi considerado francamente um tabu e não acho que isso tenha mudado. Enquanto acontecer a portas fechadas, tudo bem, mas ninguém quer pensar no envelhecimento dos órgãos genitais de nenhum dos géneros e, portanto, condenam as pessoas da minha idade a uma abstinência imposta pela idade! É louco, não é? Uma era de jardinagem e tricot ou qualquer coisa do tipo.

O idadismo, como qualquer preconceito, é desapropriado, incompreensível e, neste caso, absolutamente condescendente. Os seres humanos, independentemente da idade, são capazes de inteligência, opinião, ação, escolha e, sim, prazer, quer este venha do som, da visão ou do sexo, por amor de deus!

A idade não é um limite?

Claro que a menopausa muda uma mulher, mas não erradica o desejo ou a capacidade de prazer sexual. Há também uma aceitação que acontece quando uma mulher envelhece, um conhecimento de como o seu corpo funciona, o que mudou ou não. Uma mulher torna-se mais sensual à medida que se liga menos à imagem de seu eu físico/sexual e se relaciona mais consigo mesma como um todo.

A menopausa, que, já agora, significa apenas que o prazo para a procriação acabou, é um tempo em que a mulher é fonte de sabedoria, é uma referência, uma contadora de histórias.

Curiosamente, a fisiologia da sua vagina também se modifica, é menos lubrificada e tem menos elasticidade e, muito deliberadamente, por parte da natureza, está menos interessada no ato de penetração, uma vez que os anos de fazer filhos terminaram. O seu clitóris, no entanto, pode ser despertado como nunca.

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