Premium Carluxo – O filho de Bolsonaro que derrubou um ministro quer demitir outro e manda calar o vice

Brasil

Nos últimos dias, Flávio Bolsonaro, o filho mais velho de Jair Bolsonaro, foi considerado suspeito pelo Ministério Público de lavagem de dinheiro e de organização criminosa. E Eduardo Bolsonaro, o terceiro dos filhos do presidente brasileiro, sugeriu que o Brasil produza uma bomba atómica para ser mais respeitado por Nicolás Maduro, por Moscovo e por Pequim. A concorrência, portanto, é dura mas, mesmo assim, Carlos Bolsonaro, mais novo do que Flávio e mais velho do que Eduardo, é considerado o mais controverso do clã. Porquê?

Em primeiro lugar, porque dos dois ministros já demitidos pelo pai um caiu em função dos seus ataques. Depois, porque dos dois ministros hoje na corda bamba um está já na linha de tiro de Carlos, ou Carluxo, como lhe chamam os amigos de infância. Finalmente, por ter declarado guerra a ninguém menos do que o vice-presidente da nação.

Explicando: em fevereiro, o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gustavo Bebianno, braço direito de Bolsonaro, começou a ser investigado por irregularidades num esquema de corrupção no PSL o partido que dirigiu durante a campanha eleitoral e em que também milita o presidente. Confrontado com a situação pela imprensa, Bebianno relativizou, até porque, garantiu, já havia falado com Bolsonaro sobre o assunto. Carluxo, ou 02, ou mesmo Pitbull, duas alcunhas criadas pelo pai, reagiu no seu habitat natural, as redes sociais, chamando Bebianno de “mentiroso”. Como o presidente partilhou as declarações do filho, aparentando concordar com elas, o ministro demitiu-se mesmo. Não sem antes divulgar mensagens de WhatsApp em que provava que tinha, de facto, falado com o presidente a propósito daquele tema e de acrescentar “Tonho da Lua”, em alusão a uma personagem de telenovela com problemas cognitivos, à extensa lista de alcunhas de Carlos.

Agora, é o general Santos Cruz, ministro-chefe da Secretaria do Governo, o alvo do 02. “Vejo uma comunicação falha há meses da equipa do presidente. Tenho literalmente me matado para tentar melhorar, mas como muitos, sou apenas mais um e não pleiteio e nem quero máquina na mão. É notório que perdemos oportunidades ímpares de reagir e mostrar bom trabalho”, afirmou o filho Pitbull em abril. E já circulam nas redes diálogos num grupo de WhatsApp em que o supostamente Cruz ofende Jair e Carlos – cuja veracidade o ministro nega a pés juntos.

Em comum, o ministro já derrubado e aquele em vias de sê-lo tutelam a pasta da Comunicação Governamental a que Carlos aspirava, depois de a conduzir durante mais de um ano na campanha. Bolsonaro, aliás, disse que só não o nomeou ministro da área para não ser acusado de nepotismo: “O Pitbull está atrapalhando o quê? Não me atrapalhou em nada. Acho até que devia ter um cargo de ministro. Ele que me botou aqui. Foi realmente a media dele que me botou aqui. E ele não está pleiteando cargo de ministro. Poderia botá-lo, mas não está pleiteando isso aí.”

Outra vítima nas redes sociais das rajadas do 02 – que é um talentoso praticante de tiro ao alvo, diz o seu instrutor – foi o vice-presidente general Hamilton Mourão. Nos últimos dias de abril, Carlos publicou 16 tweets violentos contra a segunda figura na hierarquia do Estado brasileiro. A maioria indiretos, recordando momentos em que Mourão contrariou declarações do pai, e outros diretos, como quando escreveu que “caiu no colo de Mourão algo que jamais plantou, estranhíssimo o seu alinhamento com políticos que detestam o presidente”. Aficionado de Olavo de Carvalho, o ideólogo do governo, Carluxo ainda partilhou o vídeo do filósofo radicado nos Estados Unidos com ofensas ao “vice”, um vídeo que o próprio Twitter do presidente também publicaria.

Essa é uma evidência de que o filho 02 não constrange o pai com as suas opiniões – antes age coordenado com ele. Bolsonaro, a esse propósito, já deu a entender que só partilha com o seu Pitbull, em quem tem absoluta confiança, o código dos seus perfis nas redes sociais.

Tweets confusos

Nem todos os tweets do segundo dos cinco filhos de Bolsonaro, no entanto, são tão focados. Alguns são até enigmáticos, como o do último dia 7. “Quando toda aquela parte da media (…) começa a defender quem qualquer um jamais pensou que o fariam, pode ter certeza absoluta que aí tem muita, mas muita jogada. Mas quem somos nós nesse infinito estrelar [sic], que na atual situação significa apenas ego? Brasil!”

A revista Época publicou até uma reportagem em que tenta decifrar o estilo literário de 02. “Carlos Bolsonaro adapta o estilo de Saramago com o mesmo talento com que Cecilia Giménez restaurou o quadro Ecce Homo. Os seus tweets precisam ser lidos de três a 18 vezes para serem compreendidos”, escreve o articulista Renato Terra.

Outro exemplo confuso é o de 21 de janeiro, 20 dias após a posse: “O conluio dos que são contra a maneira diferente de governar e usam mascaradamente um discurso bonito começa a eclodir. Tudo para a volta dos que possibilitem seus interesses. Vão somando e notem que alguns chegam a ser surpreendentes! O sistema irá até onde muitos não imaginam.” Ou outro de dois antes antes: “Segue a saga do ‘isentão’: ter a certeza que tudo vai mudar de lado, ignorando as grandes lições ideológicas, crendo que mesmo com sua pífica [sic] representação será suficiente para eleger um amiguinho do sistema com seu podre modus operandi em 2022,”

A fase enigmática, ilustrada pelas publicações acima, ou de poderosa influência no governo do Brasil, como no caso da demissão de Bebianno e processo de desgaste das imagens de Santos Cruz e Mourão, foi precedida por outra mais radical. Em 2010, escreveu no Twitter “chupa viadada”, quando a comissão de ética da Câmara dos Deputados arquivou um processo contra Jair Bolsonaro por supostas frases homofóbicas do então parlamentar.

Derrotou a mãe

Nascido em 1982, em Resende, cidade do estado do Rio de Janeiro em que se situa a Agulhas Negras, a academia militar onde o pai se formou oficial, Carlos e os irmãos, ao contrário do que seria de supor, não estudaram em colégios militares. Segundo o próprio deu a entender em entrevista ao canal de YoutTube da jornalista Leda Nagle, foram sucessivamente vetados em represália contra uma exigência pública de melhores salários dos militares feita pelo pai. Essa exigência, aliás, acelerou a passagem do hoje presidente para a reserva, em 1988.

Em 2000, entretanto, tornou-se o vereador mais novo da história do Brasil quando aos 17 anos concorreu, patrocinado politicamente pelo pai, a uma vaga. No processo, uma experiência, eventualmente, traumatizante: para ganhar essa eleição derrotou a própria mãe, Rogéria Nantes, entretanto divorciada do pai, numa espécie de complexo de Édipo reverso.

Citado pela edição brasileira da BBC como “um caso muito especulado no meio político”, essa eleição levou até a crises familiares. “Tivemos um pequeno problema familiar, sim”, admitiu Carlos. “Ele [Bolsonaro] queria continuar com o seu apoio político no Rio e ela [Rogéria], separando do meu pai e perdendo esse apoio político, não entendeu à época que ele necessitava disso.”

Diz ainda a BBC Brasil que, em entrevista em abril, o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, insinuou que Bolsonaro se sentia culpado por ter atirado o filho numa disputa contra a mãe e tentava recompensá-lo desde então. “Ele [Carlos] derrotou a mãe para vereador”, disse Maia. “Isso deve ser normal na cabeça de um ser humano? Derrotar uma mãe aos 17 anos? Deve ter gerado muitos problemas na cabeça do Carlos. A informação que eu tenho, apenas de ouvir falar, é que eles ficaram sete anos sem se falar, ele e o pai.”

O presidente não costuma fazer críticas públicas a Carlos, ao contrário do que já sucedeu com os irmãos, e deu-lhe a honra, exclusiva, de seguir sentado na parte de trás do Rolls Royce usado no percurso da tomada de posse até ao Palácio do Planalto.

“Bolsonaro só ouve o 02, ele sabe como influenciar o pai”, disse, nesta sexta-feira, Bebianno, uma das vítimas de Carluxo, à revista Veja.

Vereador discreto

A cumprir o quinto mandato como vereador no Rio, aprovou poucos projetos – uma lei que condiciona a mudança de nomes de ruas ao apoio de moradores e outra que proíbe propaganda em postes e viadutos – e é tido como dócil no trato pessoal, ao contrário da imagem feroz que passa atrás das telas de computador.

Foi, entretanto, vítima do problema que vem afetando o irmão Flávio: os assessores-fantasma. Reportagens recentes do jornal Folha de S. Paulo descobriram uma mulher contratada até janeiro como assessora do vereador que, no entanto, afirma nunca ter trabalhado para ele. A mulher é irmã de um militar que assessora Jair Bolsonaro.

Outra ex-assessora, segundo o jornal, trabalhou com a família Bolsonaro e emprestou o nome para um militar – ex-marido da segunda mulher de Bolsonaro – abrir três empresas, atuando como sua “testa-de-ferro”.

Boatos nas redes

Com 1,6 milhões de seguidores no Twitter e acusado pelos críticos de ter sido o estratega da comunicação com recurso a fake news de Bolsonaro em campanha, Carluxo sofre agora com a proliferação de boatos em torno de si. Além de uma insinuação de homossexualidade por causa da relação próxima com um primo conhecido como Léo Índio, ainda é o alvo central de uma teoria da conspiração envolvendo o atentado sofrido pelo seu pai.

Nascida no Twitter, a teoria, a que até deputados do PT aderiram nas últimas horas, refere-se a um eventual encontro entre Carlos e Adélio Bispo, o agressor de Bolsonaro, no clube de tiro de São José, em Santa Catarina, dias antes do atentado em Juiz de Fora, Minas Gerais, a milhares de quilómetros dali. O 02 era, aliás, o único dos filhos do então candidato presidencial presente na hora da facada.

“São seres humanos da pior espécie”, disse Carlos sobre os autores da teoria. E disparou em seguida outro dos seus tweets enigmáticos: “Onde estão os caras feias, os identificadores de problemas, os escritores de cartas para aliados ‘desbocados’? O silêncio não tem nada a ver com a descoberta de seus devidos lugares. O que está por vir pode derrubar o Capitão eleito. O que querem, é claro!”

Por: dn.pt

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