Omissão do governo Bolsonaro insufla a tensão no meio da Amazônia

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‘Não queremos o rio contaminado, não queremos ver a floresta se acabar. Se acabar, como é que vamos viver?’

A propagação das queimadas no mês de agosto na Amazônia, após a alta do desmatamento em julho, provocou uma crise internacional sem precedentes. Mas, ao longo do primeiro semestre, antes de o assunto ganhar relevância nos jornais e nos gabinetes estrangeiros, garimpos e madeireiras testavam os limites da “nova era”. Desde a posse de Jair Bolsonaro, a ideia de “aplicar a lei sem exageros”, de acordo com Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente, tornou-se, em palavras e gestos, a senha para o vale-tudo, sinal verde para a impunidade.

No meio da floresta, a sensação do “liberou geral” deita raízes profundas e insufla a tensão em uma área historicamente dominada por conflitos insanáveis. “Por que cobram tanta legalidade desse povo que está lutando pela sobrevivência?”, pergunta, de maneira “inocente”, um madeireiro do Pará. A pobreza crescente e a falta de oportunidades de trabalho incentivam a ilegalidade. Caso de Jorge, de 48 anos, eletricista empurrado para o garimpo nas terras dos Kayapó por conta da crise econômica.

Em uma área de, aproximadamente, 5 hectares de floresta desmatada e 4 metros de solo removido, lavado e peneirado, Jorge e os companheiros, ao lado de Chicão, dono do maquinário, calculam ter encontrado cerca de 600 gramas de ouro desde dezembro. Em nove meses, em troca de uma destruição quilométrica, os garimpeiros embolsaram merrecas. Ainda assim, movidos por um sonho de riqueza, continuam escravos da situação. “Não tem vaga lá fora. A gente está aqui por que é onde a gente pode arrumar um dinheiro mais fácil”, explica. “É sufoco. Sei que não é normal o que a gente faz. Desmatamos a floresta, contra o meio ambiente. Eu sei.” 

Foto: Felipe Milanez

À lucidez do garimpeiro miserável, preso a uma rotina estafante e ameaçado de prisão, opõe-se a malandragem dos financiadores dos garimpos, grileiros e madeireiros. Nas terras Kayapó operam de forma ilegal ao menos 120 escavadeiras hidráulicas, avaliadas em meio milhão de reais cada uma. Em torno dos equipamentos, grupos de dez trabalhadores autônomos reviram a lama. As escavadeiras começaram a ser usadas no Pará a partir de 2014, trazidas principalmente de Peixoto de Azevedo, em Mato Grosso. Operar o maquinário exige uma mínima qualificação e transforma os chamados pecezeiros em “elite” do garimpo. Enquanto eles ganham por hora de trabalho, jateadores, despedradores e maraqueiros, a arraia-miúda, dividem uma pequena porcentagem do que for encontrado, em torno de 3% do valor do ouro extraído. 

A importação das PCs, como são chamadas, provocou um aumento vertiginoso da capacidade de destruição da floresta. E também no sistema de financiamento das redes de crimes ambientais. Ficou mais rápido e fácil repor as máquinas destruídas por fiscais do Ibama e da Polícia Federal. A punição perdeu o efeito disciplinador. Presidente da Cooperativa de Garimpeiros de Ourilândia do Norte, João Costa Guerra perdeu uma escavadeira em 2017, durante uma operação contra a exploração ilegal, mas seu irmão conseguiu recolocar três máquinas nas terras indígenas. Guerra tinha saudade do passado, quando chegou a ter oito balsas de garimpo no Rio Madeira, e sonha com o “futuro radiante” prometido por Bolsonaro. Também reclama da Vale, dona, segundo ele, de um “latifúndio” de lavras que impede a livre concorrência.

O garimpo costuma derrubar a porteira a outras atividades, principalmente para a extração de madeira e a pecuária. Do misto de interesses particulares e conluios brotam como ervas daninhas soluções criativas para burlar a legislação. Saiu da cabeça de um madeireiro local a ideia da Kayapó Ltda., em tese uma cooperativa destinada a explorar as terras indígenas, celebrada pelos vereadores da cidade como a maior promessa de desenvolvimento local. Talvez seja a tal “solução capitalista” para a Amazônia repetida como mantra pelo ministro Salles. Madeireiro desde os anos 80 do século passado, João Gesse bate continência para Bolsonaro, nutre esperança de prosperidade e lista os culpados pelo atraso regional. “Olha a miséria em que vivem esses índios, e as ONGs não mostram, o Payakan não mostra, Merkel não mostra, o presidente da França não mostra, o Fundo Amazônia não mostra”, afirma. Segundo ele, Bolsonaro vai conseguir retornar por meio da Kayapó Ltda. “100%” das terras indígenas. O deputado-cantor Sérgio Reis, o senador Major Olímpio, empresários ligados à Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, negociantes de ouro e lobistas da região entoam o mesmo cântico.

A justificativa para a cooperativa, cujos objetivos sociais são “a extração, exploração agroindustrial, produção e comercialização comum de essências nativas através do manejo sustentável da floresta da reserva Kayapó, exploração e comercialização de recursos hídricos (energia elétrica) e comercialização de crédito de Carbono” (sic), tem o nobre objetivo, afirma Gesse, de “desmascarar as ONGs”, “tirar a Funai” e enriquecer os índios para “aprender a administrar suas coisas igual a índio americano”. Um negociante de ouro sugere: “A cooperativa Kayapó precisa de garimpo, e do setor florestal que queira praticar a legalidade”.

João Gesse, madeireiro, tem a fórmula: “Não tem que inventar a roda. É só tirar essas ONGs, a Funai podre e o Ibama da reta e meter na cadeia, que é o que o Bolsonaro está fazendo”

A Turedjam conhece os resultados dessa “modernidade”. Antes banhada pelo Rio Branco, onde as crianças tomavam banho livremente, os arredores da aldeia lembram agora um campo de guerra bombardeado com napalm. Em meia década, a linha demarcatória das terras dos Kayapó virou uma vasta área de crateras, cursos d’água assoreados e poças contaminadas com mercúrio. De helicóptero vê-se o Fresco, que serpenteia a Kikretum, marrom de lama de garimpo, encontrar-se com o Riozinho, de águas cristalinas que desce das montanhas e atravessa aldeias que resistem à extração mineral.

Desde 2014, os Kayapó passaram a conviver com garimpeiros e madeireiros numa vasta área de seu território, entre as cidades de Redenção e Tucumã. Em março e abril, novos garimpos desmataram 330 hectares de floresta, segundo dados do Sirad-X, da rede Xingu+. É o dobro do registrado no mesmo mês em 2018. Estradas ilegais ligam áreas de garimpos distantes mais de 80 quilômetros uma da outra. A exploração madeireira no percurso completa o quadro de devastação.

Implantar a Kayapó Ltda. pressupõe corromper lideranças, “tirar a Funai” do circuito e difamar e atacar quem se opõe à destruição da floresta, estratégia que se torna mais fácil diante da inação deliberada do poder público. “O Dia do Fogo”, combinado por fazendeiros pelo WhatsApp sem que o Ibama pudesse impedir, é só um aspecto, o mais visível, do problema. A omissão expõe lideranças comunitárias à violência e ao risco de morte. Perto da mesma BR-163 dos incêndios planejados, os Munduruku têm sido obrigados a agir por conta própria para expulsar madeireiros da terra Sawré Muybu, no Médio Tapajós, e temem retaliações. “Ficamos muito revoltados por ver as nossas árvores derrubadas e as nossas castanheiras como tora de madeira em cima de um caminhão”, afirmaram em nota as lideranças da etnia. Em outro documento, denunciam: “Pedimos providências imediatas às autoridades, porque as ameaças contra nossas lideranças e nossas comunidades só estão aumentando. Cada dia e com cada ação, estamos correndo riscos”. Takaktyx, professor de português e de língua escrita Kayapó, preocupa-se com a beligerância de Bolsonaro e o enfraquecimento da Funai. “Ele fala coisas muito ruins dos índios, como se a gente fosse animal. E diz que Raoni não é autoridade. Ele quer invadir nosso território, mas não vamos permitir.”

Ao contrário do que se imaginava, não tem sido o desenvolvimento, mas a falta dele o principal motor do desmatamento. Sem assistência da Funai, algumas aldeias Kayapó passaram a aceitar o garimpo e a negociar um porcentual da extração do ouro, em torno de 10%. Justificam os acordos pela necessidade de sobrevivência. Tal qual o pobre garimpeiro que reconhece os danos ambientais de seu trabalho, os indígenas têm consciência dos males trazidos a tiracolo pelo garimpo: malária, diarreia, rio destruído, banhos de chuveiro, água de poço, comida industrializada, diabetes. O garimpo em Turedjan explodiu depois da morte do cacique Mro’o, em 2015, e divisões políticas na aldeia decorrentes da atividade. Um indígena chegou a ser preso pela Polícia Federal por colaborar com a expansão da atividade ilegal e obter benefícios pessoais.

Os Kayapó não consegue deter os invasores. Foto: Felipe Milanez

Nas redondezas, discursos como o de Gesse vendem ilusões: “Virão as grandes indústrias, dez que eu contatei agora no Sul. Isso resolverá o problema de desemprego, trará divisas para o município, estado e União, e os índios ricos preservando a floresta, vivendo decente e estudando. É simples. Não tem que inventar a roda. É só tirar essas ONGs, a Funai podre e o Ibama da reta e meter na cadeia, que é o que o Bolsonaro está fazendo”. O madeireiro calcula que as atividades nas terras Kayapó podem render 25 bilhões de reais. 

Distante dos garimpos e das madeireiras, a aldeia Kendjan, na beira do Rio Iriri, tenta encontrar caminhos alternativos e suas lideranças se declaram prontas para a guerra. Com apoio da Floresta Protegida, conseguem vender sementes de Cumaru para a empresa de cosméticos inglesa Lush, organizam turismo esportivo de pesca e possuem um brilhante chefe, Pukatyre, que pensa em outros caminhos para sua comunidade. “Bolsonaro está mandando garimpeiros virem acabar com os índios”, afirma. “Aqui, não aceitamos. Não queremos o rio contaminado, não queremos ver a floresta se acabar. Se acabar, como é que vamos viver? Eles querem acabar com a nossa vida. Nós defendemos a floresta, e o rio para a floresta viver. O rio também vive.”

Por Carta Capital

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