Igreja evangélica progressista faz cultos dentro de bar

Religião

Com o nome de “Nossa Igreja Brasileira”, os cultos dessa igreja de linha batista são realizados dentro da Casa Porto, um bar no Largo São Francisco da Prainha, região portuária do Rio de Janeiro.

Os cerca de 20 fiéis reúnem-se sob a liderança do pastor Marco Davi, 52 anos, há cerca de dois meses. Antes de chegar no bar, a igreja teve como embrião uma reunião na Igreja Batista Memorial da Tijuca, em 20 de novembro do ano passado, Dia da Consciência Negra. Depois, passou a fazer cultos no Instituto de Pesquisa das Culturas Negras (IPCN), passando por um outro bar, na Lapa. Atualmente na Zona Portuária, seu púlpito traz mensagens focadas na fé e em questões sociais, num viés de valorização dos negros.

“Na nova terra, o negro não vai ter corrente e o nosso índio vai ser visto como gente; na nova terra, o negro, o índio e o mulato, o branco e todos vão comer no mesmo prato”, diz um dos cânticos entoados ao som de violão e batucadas no atabaque.

O pastor Marco explica um pouco sobre sua proposta: “Não é exatamente uma proposta de uma igreja negra, não queremos polarizar, mas, como 80% dos nossos ritmos são de origem africana, isso acaba atraindo muitos negros. E o nosso discurso é progressista também, fala dos ancestrais e da questão da mulher, o que não é comum nas igrejas evangélicas. Nosso desejo é que a cultura brasileira seja a nossa identidade”.

Ele conta que foi criado na Igreja Batista no interior do RJ, mudou-se para a capital aos 18 anos, onde cursou o seminário. Mas foi durante um congresso de evangelização em Minas Gerais, em 2003, que passou a questionar por que os negros não “apareciam” nas igrejas evangélicas.

“Onde eu cresci o pecado era preto, e os ritmos africanos eram demonizados. Ao mesmo tempo, a teologia negra estava crescendo no Brasil, mas eu nunca tinha entrado nela de cabeça”, explica o pastor.

O dono da Casa Porto, Raphael Vidal, participou de alguns cultos e diz ter gostado muito do que viu: “Conheci o pastor quando ele estava numa mesa, bebendo, comendo, e curtindo um samba. Já estive presente duas vezes como ouvinte e gostei muito da perspectiva dele da leitura da Bíblia. Vi uma oficina de abayomi [bonecas africanas] e fiquei surpreso”.

A opção da igreja pelo espaço boêmio se justifica pelo valor cobrado por Vidal, o aluguel do espaço é simbólico. São apenas R$ 100 por reunião, dinheiro que ajuda a pagar a faxina pós-orações.

“Sem doutrina”

Durante cultos os engradados de cerveja e demais bebidas são levados para uma sala ao lado. No espaço onde costumam ocorrer os shows da Casa Porto, quando a igreja se reúne são oferecidos café, biscoitos e bolo de fubá. Depois do encerramento da reunião os fiéis são livres para ficar e participar das festas promovidas no bar.

A teologia mais progressista de Marco atrai fiéis como a professora Evelyn da Luz, de 37 anos. Ela deixou de frequentar sua antiga igreja por buscar “maior liberdade”. O motivo de ter mudado de congregação foi as críticas que recebeu nas redes sociais de uma pastora da igreja, após Evelyn postar uma foto onde aparecia pulando carnaval.

A professora, e sua filha de 8 anos, estão felizes na nova denominação. “Passei por situações desagradáveis e postei essa foto porque queria celebrar a vida. Fiquei super mal com o ataque. Uma amiga entrou em contato comigo, tomamos um café, e ela falou do início dessa igreja. Eu quero poder adorar Deus sem doutrina de isso ou aquilo. Agora me sinto muito bem com os irmãos que compartilham da mesma opinião que eu”, explica.

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