Famílias destruídas e aldeias em cinzas

Famílias dizimadas, aldeias literalmente reduzidas a cinzas e pelo menos 62 pessoas mortas na sequência do mais grave incêndio florestal registrado em Portugal.

Portugal está de luto. Foi oficialmente decretado para três dias (entre domingo e terça-feira), mas nem seria preciso oficializar o sentimento que queima a alma de milhões de portugueses, este domingo, após um despertar de choque com as consequências do fogo que lavra no Concelho de Pedrógão Grande desde o início da tarde de sábado.

Um menino de quatro anos foi o primeiro rosto conhecido da tragédia. Rodrigo, de quatro anos, estava de férias com o tio, que também morreu levado pelo mar de chamas, porque os pais estavam de lua-de-mel, em Cabo Verde. Há pelo menos mais três crianças e alguns casais entre os 62 mortos confirmados do incêndio.

Na rodovia EN 236-1, 30 pessoas perderam a vida, soterradas pelas chamas dentro dos carros ou na berma da estrada quando tentavam fugir daquele inferno de calor e fumo. Muitos deles eram turistas que tinha ido passar o dia à praia fluvial das Rocas, em Castanheira de Pêra.

Outras tantas morreram em caminhos, casas e campos do Concelho de Pedrógão Grande. Só na aldeia de Nodeirinho, 11 pessoas perderam a vida. Em Sarzedo S. Pedro, foram sete ou oito, um grupo que tentou escapar a pé.

No meio da tragédia, há histórias de sobrevivência. Finais felizes, de dramas em que a vida esteve por um fio. Caso de uma dúzia de pessoas que sobreviveram refugiando-se num tanque de água ou de um homem que acelerou com a família na caminhonete, nas barbas do fogo, a evitar a morte. “As labaredas batiam na caminhonete. Nem sei explicar como sobrevivi”, disse.

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 Armando Casinhas viu uma parede de fogo pela frente, ao chegar à EN236. Deparou-se com carros a arder e fez marcha atrás. “Pensei que ia morrer”, contou ao JN.

Há ainda o registo de 62 feridos, e destes, cinco em estado grave – uma criança de quatro anos e quatro bombeiros – transferidos para hospitais especializados em tratamento de queimados, como Santa Maria, Lisboa, HUC, Coimbra, e Prelada, Porto. Há ainda dezenas de deslocados, estando por calcular o número de casas e viaturas destruídas.

Durante o dia deste domingo, pelo menos duas aldeias foram evacuadas, duas no Concelho de Pedrógão e uma em Figueiró, quando o fogo, que chegou a estar reduzido a duas frentes, ganhou novo fôlego, empurrado pelo vento forte e incerto, num dia de calor, com temperaturas acima dos 40 graus e humidade praticamente nula.

 Um caldo idêntico ao que terá estado na origem do incêndio, que segundo as primeiras investigações da Polícia Judiciária terá começado na sequência de uma trovoada seca. Alastrou depressa, varreu estradas e aldeias.

Associações ambientais criticam a política florestal portuguesa, após um incêndio que aconteceu em grandes manchas de eucaliptal desordenado, numa região conhecida ironicamente como pinhal interior.

Uma área florestal de fraca gestão, em que os proprietários só lá voltam basicamente para cortar, que levou o presidente da Liga Portuguesa de Bombeiros, Jaime Marta Soares, a sugerir o emparcelamento da floresta.

O incêndio de Pedrógão Grande é o mais mortal de que há registro em Portugal, e um dos três maiores da Europa em número de vítimas, apenas ultrapassado pelos incêndios na Grécia, durante o verão de 2007, que provocaram a morte de 77 pessoas, e pelos fogos na Aquitânia, em França, há quase 70 anos, quando morreram 82 pessoas.

 Em face da dimensão desta tragédia, António Costa anunciou que as escolas dos concelhos de Pedrógão grande, Figueiró dos Vinhos e Castanheira de Pêra fecham portas até ordens em contrário. Os exames e provas de aferição, previstos para a próxima semana, ficam adiados “sine die” para os alunos destes concelhos, quer frequentem escolas na área de residência ou outra.

Mobilização solidária

O luto, Nacional por decreto, rapidamente invadiu o país, das redes sociais às pessoas reais. Ansião e Avelar, por exemplo, acolheram pessoas durante a noite e a madrugada, também de manhã. Umas fugiam das chamas, outras procuravam familiares a amigos. Todas encontraram apoio e refúgio.

A Gulbenkian criou fundo com dotação inicial de 500 mil euros para a região e o Governo, na pessoa dos secretários de Estado da Administração Interna e da Secretária de Estado da Segurança Social – que destacou vários operacionais para o local – vai manter-se presente na região, agilizando meios, que estão assentes em seis pontos de atendimento: em Avelar, no campo de futebol; em Pedrógão Grande, na Santa Casa; em Figueiró dos Vinhos, no pavilhão gimnodesportivo; em Ansião, nos Bombeiros Voluntários; e dois em Castanheira de Pera, um na Santa Casa e outro no Lar São José.

A Cáritas anunciou que tem já disponíveis 200 mil euros para ajuda imediata. A Caixa Geral de Depósitos abriu uma conta solidária, já com 50 mil euros, e muitas pessoas afluem a Pedrógão com ajuda material e humana.

O treinador de futebol André Villas Boas conseguiu cem mil euros numa angariação de fundos na internet.

O Exército e a Marinha juntaram-se ao combate ao fogo, tendo mobilizado seis pelotões. A ajuda chegou também da União Europeia, com Espanha, França e Itália a enviarem aviões de combate a incêndios.

O fogo deflagrou numa área florestal em Escalos Fundeiros, em Pedrógão Grande, distrito de Leiria, cerca das 14.43 horas de sábado, e alastrou-se aos municípios vizinhos de Castanheira de Pêra e Figueiró dos Vinhos. Domingo à tarde entrou no distrito de Castelo Branco, na zona da Sertã.

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