Diabetes e disfunção erétil: o problema de que é preciso falar

Saúde

Portugal é um dos países a nível europeu com maior taxa de diabetes, e os números estão a crescer. Estima-se que 13% da população adulta portuguesa tenha diabetes, segundo o Programa Nacional para a Diabetes, da Direção-Geral da Saúde. João Jácome de Castro, endocrinologista do Hospital das Forças Armadas, Lisboa, justifica este crescimento pelo estilo de vida que cada vez mais predomina. “As pessoas são mais sedentárias, comem pior, têm mais excesso de peso… tudo isto leva à propensão da diabetes”.

A diabetes a que o endocrinologista se refere é a de tipo 2, que corresponde a cerca de 95% dos casos portugueses. Define-se por um desequilíbrio no metabolismo da insulina, que faz que o corpo precise de uma maior quantidade de insulina para a mesma quantidade de glicose no sangue. Embora se possa dever à genética, os principais motivos para o seu desenvolvimento são o sedentarismo e a obesidade.

“Contrariar estes hábitos deve ser a primeira linha de tratamento”

“Nós nunca gostamos de tratar o doente, mas sim de apostar nos tratamentos preventivos. Tais métodos passam por ter a doença controlada através da medicação como também pela aposta num estilo de vida saudável”. Assim aponta Nuno Domingues, urologista do Hospital CUF Descobertas, em Lisboa. Parece simples. Então porque se conta com uma grande prevalência desta doença?

A falta de conhecimento demonstrada pelos doentes é parte da resposta. Estima-se, segundo o mesmo relatório, que 30% da população diabética em Portugal ainda não esteja diagnosticada. Garantir o diagnóstico o mais cedo possível é por isso o primeiro grande esforço que se apresenta à população médica. O segundo esforço passa por “tratá-las como deve ser”, mas segundo João Jácome de Castro isto não acontece.

O não conhecimento limita o tratamento

Há ideias preconcebidas que teimam em prevalecer sobre o real problema. Foquemo-nos no caso da disfunção erétil: ainda que não seja uma consequência direta, é um fator de risco muito grande que faz que o problema seja bem mais frequente nos diabéticos. Nuno Domingues prevê que “muito possivelmente, em alguma fase da sua vida, o diabético irá sofrer disfunção erétil”. Afinal, explica,“esta é uma doença multifatorial que atinge todos os vasos do organismo, em particular as artérias do pênis”, que impede uma vascularização adequada ao órgão.

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João Jácome de Castro acrescenta que a diabetes afeta a terminação nervosa indispensável ao ciclo da ereção. Além destas alterações vasculares, o doente pode contar também com alterações anatômicas. “Quanto mais tempo se vive com a doença, maior a probabilidade de vir a desenvolver impotência”, alerta.

Primeiro passo: diagnosticar

Como aponta o endocrinologista, “há todo um conjunto de fatores que levam ao grau de impotência, mas a primeira coisa a fazer é diagnosticar. Tem impotência? Qual a causa? Conseguimos corrigir com medicação?”. A resposta a estas questões vai aumentar em muito o estilo de vida do doente, garante o especialista.

Apesar desta garantia, a população médica ainda se depara com muita falta de abertura em relação ao tema. É por isso essencial que esta seja uma situação procurada pelo próprio médico em consulta. Seja por falta de abertura ou desconhecimento, o especialista não deve esperar que o doente fale do problema, daí a necessidade de mais tempo de consulta. “É impossível tratar a diabetes numa consulta curta. Não basta dizer que a pessoa tem os níveis de açúcar altos”, alega João Jácome de Castro, certo de que com o tempo de consulta adequado será possível indicar a terapêutica mais eficaz a cada caso.

É um problema da sociedade moderna e digital

Nuno Domingues é da mesma opinião e admite que “os médicos não conseguem garantir este tempo e o mal é da ditadura digital. Numa consulta de foro sexual, o doente precisa de tempo para confiar no seu médico”, reconhece.

Do pouco tempo para diálogo resulta a noção por parte do diabético de que, como tem a doença já estabelecida, a disfunção erétil é um problema sem tratamento. “Isto não é verdade”, garante o urologista, que apresenta um conjunto de opções de tratamento.

“O primeiro é o de administração oral, com o qual na maioria dos casos se consegue devolver ao diabético uma atividade sexual satisfatória”, refere o especialista. Quando este não funciona, passa-se para o segundo nível de tratamento; uma injeção no pênis que, diz João Jácome de Castro “também consegue uma eficácia muito interessante”. Mas ainda que seja uma medicação fácil de se administrar e praticamente indolor, o urologista reconhece que “a imagem de alguém a dar uma injeção no seu próprio pênis” é o pior aspecto, que retrai alguns pacientes.
Quanto tudo isto falha, propõe-se a terceira alternativa, uma abordagem cirúrgica, que consiste na colocação de uma prótese no pênis, de forma a devolver a atividade sexual normal à população diabética.

E por cá?

Todos os tratamentos já são aplicados em Portugal há algumas décadas, refere o urologista que aponta como problemática a “dificuldade que a população diabética tem em adquirir os medicamentos necessários, que não são baratos”. Para um diabético que tenha obrigação de consumir certos medicamentos mas tenha dificuldades econômicas, é normal que deixe os medicamentos de foro sexual para o fim da lista. Mas aos olhos de Jácome de Castro, esta é uma realidade que deveria mudar.

“Estes doentes têm disfunção erétil por culpa da diabetes. Nestes casos, os medicamentos deveriam ser comparticipados em maior grau. Assim esta população teria a garantia de uma saúde sexual mais satisfatória”. Atualmente, esta medicação – que é a mesma utilizada por quaisquer outros indivíduos que sofram de disfunção erétil – conta apenas com uma pequena comparticipação, e somente a nível da medicação oral.

A par de uma maior comparticipação, o endocrinologista resume que falta mais informação e maior conhecimento por parte da população geral e médica; “Falta definir objetivos e ter tempo para as consultas. Este é um serviço à população e um imperativo moral. É impossível tratar uma doença antes de saber que a mesma existe”, conclui.

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